Escrita

A obra a tinta-da-china de Cruz Louro é caracterizada pela presença constante da escrita. Todos os seus desenhos contêm palavras, frases e indicações que funcionam não só como legenda, mas como parte integrante da obra de arte.

Contemplando a obra a tinta-da-china deste pintor, concluímos que houve, a partir da década de 50, uma estabilização tipográfica. Em mais de 40 anos de obras, estas palavras foram escritas num estilo caligráfico simples e maiusculado, que permitia que elas se integrassem no desenho de forma harmoniosa.

Nos primeiros desenhos a tinta-da-china de Cruz Louro, dos anos 30, a legenda do quadro é-nos apresentada num estilo caligráfico que, citando as palavras de Ellen Lupton, reflecte a tensão contínua entre a mão e a máquina, o orgânico e o geométrico (Lupton, Ellen, 2010). Estes caracteres, inteiramente em caixa alta, representam a dualidade entre a rigidez da letra de imprensa e o carácter orgânico da letra manual.

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1937 — O Monte — Baixo Alentejo, Aldeia Nova de São Bento (postal feito a partir de zincogravura)
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1938 — Largo da Alcáçova — Alto Alentejo, Elvas (postal feito a partir de zincogravura)

Caracteres mais rectos como o E, F, H, apresentam-se com as suas linhas rijas e serifas pronunciadas, enquanto que caracteres como o B, P ou R, equilibram a fonte com as suas curvas delicadas. Existem também caracteres totalmente compostos de linhas curvas, como o Q ou o S.

Para poder criar uma versão digital desta fonte foi necessário, em primeiro lugar, encontrar, nos desenhos do pintor, o maior número de exemplos possível. A partir dessas obras foram recolhidos os caracteres que viriam a ser trabalhados digitalmente. Graças à utilização da numeração romana, foi  possível reunir quase todos os caracteres necessários.

Um facto muito relevante na escrita de Cruz Louro é a utilização do U romano, portanto, o V. No desenho desta fonte foi criado um U tradicional, para garantir a versatilidade da sua utilização. Quem desejar seguir a linha conceptual do artista pode substituir a letra U pela letra V, garantindo assim a coesão com a escrita do pintor, enquanto que quem desejar, simplesmente, usar a fonte, terá à sua disposição um U, garantidamente legível.

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Apesar de, na utilização real da fonte, a largura das letras variar conforme o espaço que existe para ser ocupado, esta fonte apresenta uma largura regular entre os vários caracteres. O desenho das letras foi feito com base numa grelha rectangular. A fonte é mono-espacejada, para que o kerning possa ser ajustado à vontade do designer que a estiver a utilizar, conforme as palavras escritas.

Por sugestão dos orientadores desta tese de mestrado, foram criadas, para os caracteres mais ornamentados, variações mais leves. Desta forma, será possível retirar peso nas palavras em que se julgue necessário. 

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